Quando caio em mim, dou comigo a rachar lenha, a reuni-la, a preparar o saco cama, a essencial água, a sobrepor carne para um churrasco que farei. Carrego a traseira da pick up. Está atolada. Cheia de... De coisas, as quais sei que me farão falta, mas, ao mesmo tempo penso que não me farão. O importante é o destino. O importante é como me sinto entre ele. Com um leitor de musica, desses modernos, que são capazes de guardar uma vida inteira, trago o mais e o menos. O mais entristecido, inaudivél, pensativo, cognitivo, emocionante e também, o mais feliz som que o meu ser deseja escutar. Trago também o menos. O menos desejado, o menos importante, pretendido e depressivo. Por estradas asfaltadas, sigo a minha busca. O magro corvo que aqui habita, grasna três vezes e parte. De óculos escuros colocados, conduzo e vislumbro estéreis paisagens que me enchem a alma. Nada por aqui é fértil. Tudo árido, vazio e sem ponta de vida ao olhar da vista. Mas há. É um universo repleto de seres vivos. Talvez não sejam os mais desejados, ou procurados, mas há vida nestes terrenos estéreis. Após uma hora de marcha atinjo a bilheteira, por que, apesar de ser deserto, é um deserto protegido. Há que pagar um visto para que lá possa entrar, mesmo que a inacabada vedação e portagem, permitam a livre entrada. O meu olho esquerdo tem tremido. É um nervoso miúdinho que me assola, mas isso não vem ao acaso. Ligo agora um moderno equipamento que me orientará na saída. Registo as coordenadas exactas e após trinta minutos de solta areia, de mudanças lentas, de primeiras constantes durante mais de dez kilómetros, avisto o que me parece ser ideal para pernoitar. Entre uma elevada escarpa e uma enorme montanha, junto-me aos fragmentos que de uma delas se despegaram e preparo-me. Reúno umas boas pedras enquanto ainda é dia, sempre atendendo à possibilidade de existir um inofensivo escorpião, mas ao mesmo tempo voraz que defensivamente me pode atacar. Após as pedras reunidas, preparo a lenha. Faço um "bom" fogo que com a devida alimentação, durará a noite toda. Umas frescas cervejas arrefecem o que as quentes brasas aquecem. A carne é temperada na hora, e apenas marina uns minutos enquanto saio para vislumbrar toda esta bela paisagem. O sol, agora secundário protagonista, vai descendo, escondendo-se por entre montanhas. A lua, essa vai cada vez mais alta. Quase cheia, começa a iluminar o que o sol escurece. Regresso ao acampamento. Dei tempo suficiente para que a carne pudesse ganhar um qualquer gosto, que não o seu original. É demasiadamente apalada. É forte de gosto e de cheiro. Faço-a grelhar durante alguns minutos e como-a. A noite rompe os céus e por aqui e ali, avistam-se cintilantes estrelas que com o cair da lua se tornam cada vez mais reluzentes. Sem a presença da lua nestas andanças, há agora um oceano repleto de estrelas. Não qualquer luz artificial, sem ser a da minha fogueira por estas bandas, e de pouco em pouco tempo, não precisando o mesmo, mas certo que é pouca a diferença, cadentes rastos de estrelas se avista. É uma incalculável riqueza para o consolo das vistas. Vou adormecer a vê-las. Vou-me enriquecer ao guarda-las nas minhas memórias. Vou recorda-las sempre que não as vir. Hébrio, mas controlado, penso-te! Na caixa aberta da pick-up, estendo um cobertor, e, onde a minha cabeça irá repousar faço nele duas dobras para se assemelhar a uma almofada. Entro no saco cama e fecho-o. Os olhos começam a pesar, e lentamente as pálpebras vão fechando até à completa união. Pela manhã acordo ainda meio zonzo pelas cervejas que bebi, mas com o raiar do sol olho em meu redor e, vejo como é magnifíco este lugar. Por entre um vale, o sol espreita, e aos poucos, vai-se elevando. O calor, que diga-se de passagem nunca termina, começa agora a crescer cada vez mais. Exponho-me e deixo que seja o sol a secar-me a cara e as mãos. Vou por aí em busca de algo mais, e mais e maior vejo. Como é calmo este local. Como é... Indescritível e único. Junto mais uns cepos à quase extinta fogueira para que nela possa fazer um chá e aquecer um destes pães quase insipidos. De cara lavada, pequeno almoço tomado e dentes lavados, começo a extinguir a fogueira. Após a ter apagado, de reunir os sacos de lixo que produzi, arrumo as demais coisas que me ajudaram a passar a noite. Ligo a pick-up, o ar condicionado, meto o ipod a dar música, preparo o gps e sigo adiante. Vou uns quilómetros mais a frente para poder ver entre vales e montanhas, as mais belas formações de rocha arenosa. A certo momento, introduzo as anotadas coordenadas e regresso.
Um regresso pleno de tranquilidade, para mais uma semana de lavra.
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