20090420

Perfeita noite inaudível

Noites Londrinas entre becos e vielas, onde numa esquina, que negada a qualquer um, se pode encontrar uma festa ocupa. Ambiente seleccionado a custo zero, que se faz deixar ver num terraço repleto de pessoas. Umas vivendo, outras pessoas comendo. Era-lhe dito que certa dona cruzava com o seu olhar, contudo, primeiro de lhe ser oferecida tal informação, já tinha reconhecido o alvo. Teria subido em curtos degraus numas escadas íngremes e de estreita passagem. Corpos chocavam à medida que subiam e desciam. Copos de vinho tinto eram presos entre dedos, uns delicados, outros grosseiros, outros subtis, outros ainda que simplesmente nada seguravam, mas algo pretendiam segurar. Faces olhavam predatória mente o seu próximo alvo como se uma tentativa canibalesca intimasse os transeuntes. Paredes teriam de se afastar para que no mesmo ponto, a um degrau de diferença, se pudessem cruzar ao mesmo tempo dois corpos deambulares. Presas, predadores. Caça!
Perdido no alheio, recordações da sua adolescência transpareciam os que trespassavam o seu ser. Os copos da diferença tornavam as mentes mais frágeis, ou mais convictas do que de ébrio mais se podia ter. Num beco a duzentos metros daquele local, onde agora se estagnam uns paquistaneses a vender erva, "Jack the Ripper" teria esventrado qualquer uma. Teria talvez saciado os seus prazeres naquele crepúsculo. Talvez não o tivesse. Ambos predadores teriam seleccionado a sua vítima e transformavam cada um na sua presa. Confissões de olhares perdidos, que jamais andaram à deriva mostravam a descodificação de suas cifras. A postos com o concordado, sem que um gesto fosse pronunciado, sem que um som fosse denunciado, numa tremenda harmonia de prazer, desciam um a um, os curtos degraus da vitória.
Em larga praça que alberga Liverpool Station, bem junto das arcadas do Starbucks, seus olhares continuam-se a beijar, e o desespero de esperar pelo mesmo dois andares torna-se taquicárdio. Pulsações aumentadas, pressões em erupção. Aproximam-se os corpos, libertam-se odores, explodem sensações. As mãos, essas tocam-se pela primeira vez, desta feita sem que haja qualquer objecto que as interrompa, qualquer desculpa que as quebre, qualquer sílaba que as desfaça, apenas o húmido que intriga as mentes. Ora se são da adrenalina, ou se serão mesmo do tempo que se faz sentir.
O fim de Dezembro é frio, mas o calor libertado entre os poros da humidade aquece olhares, onde as salivas se misturam e provam paladares nunca antes escutados. Os mais íntimos pensamentos surgem nas suas mentes.
Empurrados de contra a parede de granito azul, corpos fervem em noites de gelo, línguas tocam dentes límpidos e resplandecentes, olhares fecham-se dando sentido a outros sentidos. Sente. Beija. Toca. Explora. Corpos violados em prazer de satisfação onde olhares profundos de terceiros questionam a inveja de cada um, permitem o voyeur estender um imenso plano de contingência.
A evasão é o melhor veículo para a fuga. Portões trancados em cadeados de oiro, são quebrados com códigos simples. Sente. Na luta da resplandecência, concorda-se em unanimidade.
De novo surgem degraus apertados e de passo curto. Uns querem descer, para onde outros pretendem subir. Após quarenta minutos de passeio nesses dois andares, surge no fundo dois amplos lugares. Do outro lado do corredor, vómitos de soluço expelem a cerveja que a mais está dentro dele. Novos olhares exercem pressões. Diversos olhares. De forma particular, única. Naqueles dois lugares vazios, jazem agora dois corpos vivos, onde a timidez tem lugar. Parece que nada se passou, mas não parece que se passou nada. Numa tentativa de comunicação, a mão dela poisa sobre a sua coxa. Olhada pela ansiedade, não recebe da mesma forma a mensagem. Sai a mão. Boceja a boca. São cinco da manhã, e às oito terá um deles de andar sob um metropolitano em hora de ponta. Numa outra investida, cedem as partes, e ex que moderadamente explodindo, o festim carnal prossegue rumo. Já não se trocam meros beijos, mãos exploram o vazio tentando alcançar o que de mais aprazível se pode ter. Em pleno dois andares, olhos semi-encerrados acordam para testemunhar tais vicissitudes, facto que não os parece incomodar. O momento. Só o momento é importante, mesmo que haja consequências. Uma festa tribal de corpos ébrios que se assemelham a descobertas de novos mundos. É assim que afinal de contas ele pode caracterizar tamanha atitude. Paragens voam sem que se apercebam, mas na devida altura e praticamente no fio da navalha, se prime o stop. Invadem ruas a pé desta, em corpos desequilibrados que procuram balanço. Ruas apertadas pejadas de veículos, mas sem que nenhum seja o da fuga. Casas dormem, casas despertam. Entre sexo vestido do mais libertino que se possa imaginar, cruzam dois paquistaneses que olham com ar de quem quer, mas de quem teme os olhos perenes. As câmaras seguem passos. Passos seguidos por câmaras. Seguem as câmaras com passos. A casa se chega.
Uma porta no meio de duas paredes, janela no lado direito. Tudo cinzento. Não que seja pintado de, mas de cor vencedora pelo tempo. A porta range, e, talvez devessem olear as dobradiças, mas quem é ele para tal dever. Escadas de degraus curtos estendem-se até um sótão pouco aquecido, e no seu lado direito, descansa uma cama que precisa urgentemente de mudar de aspecto. Fragmentos de tecido são colhidos e despejados por cima de uma qualquer parte de uma qualquer mobília, onde frascos de perfume feminino são deitados abaixo. Corpos permanecem acesos, e a erecção que os acompanha há dois dias, data em que se conheceram, urra por a festa carnal, de tal forma que o cigarro é deixado ao suplício de quem o fume. Contudo, continuamente bêbados, embebedam agora montes e vales, troncos e arados com um salutar de descobertas perfeitamente carnais. Não há amor. Não paixão. Não há sequer desenvolvimento de comunicação para além do desejo carnal, não há nada mais que duas erecções expectantes de penetração, nada menos que corpos que continuamente se tocam em busca de prazer.
Seus seios são perfeitos, e a sua cintura, é só e apenas o que esculpido não se consegue obter...

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