Aquela, aquela seria a última vez, que, afiaria o argênteo do seu sabre. O seu estimado, diria quase sagrado sabre. Teria encomendado-o a um artesão Japonês havia já oito anos.
Seis anos antes, ou três anos depois de, ter encomendado tal preciosa peça de artefacto, era já um altivo aprendiz de uma antiga arte, proibida por um dos imperadores.
No Kendo, dominava o Shinai e o Bokken, um sabre feito de bambú. Destacava-se dos demais praticantes e aprendizes, não pela inércia, pela destreza ou mesmo pelos Kata's, mas sim, por a sua paciência, confiança, humildade, flexibilidade, e pela sua disponibilidade. O seu destaque era ingénito. Toda a forma como se preparava, como procedia com o Ki o Tsuke, como em seguida executava o Mokuso, a rigidez que afirmava o Yamé, que seguia para o Shomen Nirei, o Otaga Nirei era feito com extrema unidade conjunta e respeito mútuo. No final de todo este processo de respeito e disciplina, seguia-se o Kiritsu. O acto desde o acto de se sentar em "seiza" até ao levantar-se tudo faz parte do cerimonial. Inazo Nitobe diz-nos; "A rectidão é este osso que nos mantém firmes e direitos. Sem o osso, nem a cabeça se mantém no cimo da coluna vertebral nem as mãos se podem mexer, nem os pés nos conseguem manter de pé. Sem a rectidão nenhum talento, nenhum saber pode fazer de um corpo humano um verdadeiro budoka". Era uma prática de grande disciplina.
Ikkaku Matsunaga, seria o seu alter-ego. Era uma pessoa banal, um transeunte como todos os outros, tinha crescido e vivido sempre no mundo ocidental, filho de europeus, com a educação, disciplina conforme nós próprios tivemos, não tendo tido nunca, qualquer contacto corpóreo com tão lobrigada cultura oriental. Tudo o que sabia sobre a cultura japonesa, foi através do seu interesse, da sua paixão, da magnanimidade que nele era intrínseca. Era alguém que gostaria de fazer algo. Algo de bom, pois o mal, esse, esse já o tinha praticado. Não tinha gostado do retorno. Tinha sido amargo, doloroso e cru. Tudo o que com ele tinha retido, seria a dor, e a memória para quando quase o voltava a praticar.
Outrora, um apaixonado por estupefacientes. Viveu e correu um mundo escuro, e, sombrio durante algumas conjunturas. Conjunturas que não foram momentâneas. Houve um prolongamento, que num normalíssimo calendário descrevia anos de passagem. Contudo, essa passagem foi ultrapassada. Novos ensinamentos surgiram. A auto-disciplina, o altruísmo, um auto didáctico. Aprendeu muito e em muitos processos. O encontro de muitas pessoas, a dor pelo afastamento de tantas outras. A gratidão por todas as que por entre ele passaram. Surge depois da estrada curvilínea. É quase pobre. Foi colmatado o seu soluço nas sombras que das árvores se despenham. Ínvio foi o caminho de onde partiu, mas honroso o que atingiu.
Uma noite. Certa noite. Uma noite como outra qualquer a coruja, no cimo do altar viu. Viu-o. Viu-a. Ele, ele não a deixou indiferente. Os seus olhares cruzaram-se, a empatia foi notável. Ela piou, seguida de um voo tangencial, no entanto não foi um voo de captura. Pousou de fronte a Ikkaku. Piou de novo, mas não sem antes assumir o olhar directo, mas ao mesmo tempo fugidio a Ikkaku. Este, seguiu com a melhor perspectiva o que aquele olhar designava. Um pequeno interregno surge entre estes com o chorar do vento. Ele julgaria ter ultrapassado tudo. O vento. Esse ia ditando o que era sabido, mas que ainda não era percebido, como se mensagens descodificadas de inviabilidade trouxesse.
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