Pois é querido amigo;
Após uma longa e dura viagem de 6 horas de Birmingham até Glasgow, finalmente poderei ir ao encontro do que mais desejo.
Descrevo-te aqui em linhas resumidas, passagens desta aventura. Campos abundantes de verde, delineados e marcados a rigor, com vedações infindáveis, onde aqui e ali, podes avistar "pequenas" ovelhas a pastar. São como belos campos de futebol, aprimorados em rejubilo constante. Eles têm o tempo marcado, as batalhas e a história, contudo, são como se nada fosse, como se, nunca nada neles tivesse existido, além destas ovelhas a pastar.
Há prados e vales, e de ora em ora, avistam-se pequenas habitações populadas por uma gente sem alma. Frios e calculistas, é a impressão que me deixam, mas tento olha-los de uma forma, a qual não me faça assim entender, pois no fundo, espero e acredito que nem todos assim o são.
De Glasgow, local de onde me aventurei por estradas secundárias, para prosseguir a minha busca, a minha tão desejada busca, sempre, de polegar para cima, aguardo a gentileza duma alma que me possa transportar. O dinheiro é curto e caro por estas ilhas e os transportes são algo a considerar por uns enlatados.
O meu destino é incerto, na certeza, carrego apenas a vontade de chegar aquele lugar mágico. Não um local premeditado, que tenha visto ou estudado num desses mapas electrónicos, ou analógicos, mas aquele lugar onde chegando, sei que será precisamente esse e mais nenhum. Alguém abrandou o carro, pára e oferece-me agora algo que dizem ser proibido, o que faz de mim e deste ancião, uns "fora-da-lei". Pela primeira vez em terras da Rainha, serei um desrespeitante desrespeitador da lei britânica. A sua pele enrugada, velha e mal tratada diz-me que não é nenhum burguês. Aceito a paragem deste e viajo num velho carro, uma mini-van, envelhecida fisicamente pelo tempo, como o seu dono, mas que debaixo do seu capô, sita um forte coração que prossegue em frente. "Where to young lad?"; Pergunta-me esta pesada voz de experiência. "Somewhere! I'll go as far as you can go!" digo-lhe num inglês acanhado; "Great then! We will go to the "Duntree" Castlle! It is my home, my working place. Oh! No, I'm not the owner." diz-me cuidadosamente.
É raro nos dias de hoje haver este tipo de confiança. Conhecer as costas de alguém e oferecer-lhe boleia. Andamos por mais de meia hora, a uma velocidade tranquila que me permite continuar a vislumbrar esta bela paisagem. O sol, esse desce a grande velocidade. Recordo-me do que o "Puto" me ensinou sobre quanto tempo temos ainda de sol para o crepúsculo, e elevo os meus dedos ao horizonte. Restam cerca de vinte minutos de sol, e o céu é cor-de-laranja vivo.
Belo e divinal.
Quando chego, já o sol se pôs. Não vejo nada mais do que nuances, do que parece ser algo grande e coruscante.
Apresso-me agora a perguntar ao ancião, se há algum parque de campismo nas redondezas, ao que com grande ofensa retruca que deverei ficar nos seus humildes aposentos. Agradeço á humilde e humana boa vontade, mas não poderei aceitar. Afinal de conta, não conheço esta pessoa há mais de duas horas e nem sei o seu nome. Depois de alguma teimosia, cedo, e com um acanhado sorriso, agradeço e aceito toda a sua hospitabilidade.
Despacha-se para fazer algo gastronomicamente típico da região. É um guisado. Vive só apercebo-me. Pergunto-lhe se nunca se tinha casado, mas prontamente e com lágrimas quase a cair dos seus vivos olhos, diz-me que havia falecido há uns anos atrás. Ao ver a sua saudade e tristeza, mudo de assunto, falo-lhe do meu país e das saudades que também eu sinto. Não pelo mesmo motivo, graças à Força, mas por os demais que deixei na minha terra natal.
A janta era saborosa, coisa rara nesta terra, e logo após acabarmos esta, apresenta-me um malte, que diz ser a essência da sua longevidade. Teàrlach, ou feito à medida de Thor pelo que pude entender é a graça desta nobre alma. Falamos pela noite fora, e parecemos bem um para o outro neste momento tão solitário, mas ao mesmo tempo tão construtivo.
Sigo agora para uma nova etapa. Encontrar o local...
Espero que estas letras vos encontre bem!
Darei noticias.
Pernoitei nas imediações da casa desta alma, durante duas noites, e ontem até tive acesso às noticias do meu país. Sigo a minha busca. Montei a minha barraca com a sua permissão, e pude ver céus para mim nunca vistos. Radiante esta experiência foi. Foi com grande leveza que me embebedei ao gosto daquele velho malte, e logo eu que nem gosto de whisky, mas como Teàrlach diz, malte não é whisky. Proferimos os mais diferentes assuntos, desde cultura e culturas, politica e políticos, mulheres e relações, o estado pouco saudável do globo. Enfim! Um verdadeiro intercâmbio de conhecimentos e interesses infinitos. É um homem culto e sabido. Tem uma enorme estante que ostenta os mais diversos livros. É também ele um amante de Oscar Wilde e de Edgar Allan Poe, entre muitos outros. Com grande pena minha não conhece Fernando Pessoa, mas traduzo-lhe uma velha frase que surge com facilidade na minha mente, e logo o fascina. "Religion is the people's Opium". Fica admirado com o pensamento e com todo o peso do seu significado. Foi tema de grande discussão que se prolongou em algumas horas. Falo-lhe em teorias conspirativas, e dou-lhe a conhecer o "Zeitgeist". Pena é não ter o meu "laptop", para que o pudesse presentear com tal afirmação open minded.
Há coisas que por coincidência ou não, não nos soam credíveis. Ali estive eu, fui encontrado por uma pessoa a qual o seu nome é significado de um Deus pagão o qual admiro, com gostos similares aos meus, solitário sem solidão, longe dos seus por opção, com um vasto conhecimento que cativa qualquer um (não que nesta última assim me sinta). Alguém que nos "captura" a atenção, que nos absorve e se deixa absorver. Um intercâmbio constante de informação. Volto para a minha barraca, contemplo as estrelas e durmo.
Na manha seguinte sou levado a uma paragem de autocarros, onde Teàrlach se despede. Entre um forte aperto de mão e abraço, avista a paragem do bus que me levará a noroeste.
Há um lago que me foi recomendado, local magnifico de encher as vistas, rodeado por montes verdejantes, onde as árvores abundam, diz-me. É também destino turístico por aquelas bandas, mas existem "éne" sítios os quais poderei escolher. Loch Katrine de seu nome.
Não cheguei a ir ao lago. Não cheguei sequer a entrar no bus que me poderia levar. Fiquei por ali mesmo, não me era necessário ir. Compreendi que o local mágico que buscava, era nada mais, nada menos que o exacto sitio onde Teàrlach me levou. O terreno da sua moradia emana vibrações estupendas. Absorvi bons conhecimentos através daquela humilde e grande alma, através daquele pedaço de terra. Debaixo daquele enorme carvalho tive um sonho, com certeza não foi o único que tive, mas esse foi o que me acordou e, que, me deixou assim a sua memória, a sua marca, a ferida aberta de novo. A generosidade e, a humildade, não é algo que nos possamos educar, ou, cultivar, mas sim algo que nasce dentro dos que a têm.
Recordo-me de ti, das nossas lágrimas na despedida, mas ambos sabíamos que esta seria efémere. Grande amigo, tu deverias ter-me acompanhado nesta jornada. Fazia-te bem... Irias adorar toda esta passagem, todos estes momentos, toda a gratidão que me foi dada, seria também dada a ti. Volvi e fui comprar um novo bilhete, em direcção a Glasgow.
Chegado de novo à urbe, é apenas mais uma, nestas remotas ilhas no atlântico plantadas. Escuto uma vez mais "Jigsaw falling into place", e de novo as lágrimas escorrem dos meus olhos e, e... Regurgito, regurgito-me em memórias, boas, más. Ahh! As saudades, o cheiro da "minha terra". "Driving" outro tema que me alerta.
Tenho agora uma espera de algumas horas por esta cidade até poder ser capturado de novo para Birmingham. Espero que desta vez não haja atrasos na viagem.
Não houve atrasos, mas, na realidade também não chegámos propriamente à hora marcada. Que confronto este! Como poderá ser possível não chegar atrasado, mas, ao mesmo tempo não chegar a horas... Bem, o importante é que chegámos todos a bom porto. São precisamente quatro e dez da madrugada quando piso Birmingham, e agora resta só chegar a Kitts Green.
Sigo a pé numa jornada cerca de 15 quilómetros, e vou vislumbrando o que esta cidade me tem para oferecer. O movimento é constante, um frenesim frenético, mesmo a esta hora, cargas e descargas, rodeiam os cais de mega-superfícies, e as pessoas, essas andam numa lavoura ritmada como se não houvesse amanhã. Em voz alta são dadas as instruções por gerentes de logística, às demais "formigas obreiras" que manobram empilhadores e porta paletes a uma velocidade alucinante. Claro que tudo isto, é à minha vista, pois também estou cansado. A viagem foi morosa, e não prego olho desde as sete horas da manhã. Contudo, não deixa de ser algo belo e sincronizado, como nas danças aquáticas que podemos ver nos jogos olímpicos, onde aquelas senhoras rodopiam e formam figuras, as quais não julgamos ser possível executar. Melhor! Vemo-las a executar duma forma a qual dizemos ser tão simples, que nós próprios as executaríamos. Maravilhoso!
Prossigo o caminho, entre sono, fome, cansaço, estado de alerta, passo por entre "silos de gás" (perdoa-me se o termo é incorrecto), bairros sombrios, outros luzidios, perdido no tempo e no espaço, mas repleto de emoções. As tabuletas indicam-me o itinerário. Sigo-as. Levo quase duas horas a chegar a Stechford, e dali ainda mais 15 minutos, mas chego. Como dizia o filósofo: "A persistência transpõe todos os obstáculos. A perseverança tudo alcança".
Fadário este que me traz e leva. Avisto a tão desejada casa, o meu poiso, a minha guarida, o meu retiro e asilo que me receberá da mesma forma que me viu partir. Trago na bagagem o leve peso da tranquilidade, que me assola no profundo âmago a resistência do meu ser. Somos seres repletos de nada, sem sentimentos, sem funções lógicas de um ser, com disfunções crónicas do que desejariam efectivamente ser. Julgamo-nos melhor que muitos, que poderíamos fazer tudo bem melhor que os nossos rivais. Calma amigo! Quando disse sem sentimentos, não quis dizer que tu não choras por que te magoaram, ou porque magoaram algum ente querido, e quando digo rival, não significa que seja alguém que contra ti compete, ou que a tua fruição é maior ou menor do que tu possas achar justo. Não. Olhamos para o nosso umbigo e tentamos agir o que é politico/socialmente correcto. Eu, eu próprio sou um destes, mais um transeunte e claro que nós não seremos tão maus quanto outros são, claro que não és tão materialista como eu, ou vice versa, mas toda a razão de sermos e deixarmos passar tanto ao nosso lado, de fecharmos os olhos a tantas outras coisas, de não nos envolvermos em tantas outras mais. Frívolos, violentos, inteligentemente sem inteligência, materiais, humanos. Eis o que realmente somos. Somos humanos, mas do dicionário, onde a palavra humano se insere, os seus sinónimos apenas representam dois adjectivos dos cinco apresentados: próprio do homem e relativo ao homem e um substantivo que refere o género humano. Ficam em vista disto três adjectivos os quais na maioria, e quando te escrevo a maioria, é para não dizer na totalidade pois como lírico ainda julgo existir pessoas inocentes, o compassivo, bondoso e o benigno ficam a quem de aparecer em listas infindáveis como os anteriores. Ora se um mais um são dois e não onze, se o pragmatismo foi inventado pelos gregos há séculos e ainda todo planeta terra o utiliza, porquê, é que não pro-agimos em função uns dos outros. Como diz o meu amigo Cabs, eu sou dos uns e tu és dos outros, logo vamos ao cú uns aos outros. É terrível. Batermo-nos de valores morais, sociais, emocionais, judiciais, legais e outros tantos que terminam em tais e no fundo, no fundo somos todos iguais. Como nos poderemos ter auto intitulado racionais se subestimamos os por nós intitulados não racionais. O mundo é coisa feia amigo. Para podermos ser um pouco melhor hoje, lembramo-nos do mal igual ou semelhante que nos fizeram no passado. Somos de facto espertos, porque de inteligentes... Conclui tu. Até podemos equacionar as mais dificeis contas, elevar enormes obras de engenharia, criar curas para as dificeis doenças que surgem, contudo, somos apenas um contingente contido na nossa enorme estupidificação. Gozamos e chegamos mesmo ao ponto do ostracismo global, em virtude dos que se intitulam mais cultos e até especiais. Pois é meu amigo, são as palavras conforme comecei três estas linhas. Sou revoltado e isso revolta-me, daí o meu contentamento por ter conhecido Teàrlach, mas a minha tristeza em saber que outros se sacrificaram para que ele hoje fosse aquela gentil pessoa. Blá; blá; blá é só o que ouço dizer. Vêm cá cheios de teorias e teologias e demagogias e outras tantas ias. Ias era fazer alguma coisa por ti, por os teus ente queridos, pôr o teu planeta que ajudas a destruir todos os segundos que nele ainda consegues respirar, isso é que tu ias, e atenção que este ias não é exclusivamente a ti direccionado. É um ias global. Esquecemo-nos de quê? Sonhamos com o quê? Sonhamos com poder, com o nosso bem estar, com o facto de não nos importarmos com todo o achaque que o dinheiro e o poder nos impõe. Somos meros fantoches num teatrinho desses mesmos. Arghhh!! Fodasse, caralho! Só me apetece praguejar. Gostava de ser a cura para todos os problemas, e que no fim pudéssemos tirar real proveito dos três não englobados adjectivos de humano. Vou-me deitar. É de manhã, e o meu mal é sono. Toda esta raiva contida são restes de lisérgicos mal vividos, contudo, pela educação que a minha mente tem, como nesta terra não há estores, resta-me tentar adormecer na claridade, coisa que não me parece nada fácil. Mas vou á luta uma vez mais, afinal de conta, mais vale a pena tentar e falhar, do que, não tentar. Mesmo se tudo fôr dar ao mesmo, pelo menos fiz alguma coisa.
Adeus e um queijo. Bom trabalho.
Após uma longa e dura viagem de 6 horas de Birmingham até Glasgow, finalmente poderei ir ao encontro do que mais desejo.
Descrevo-te aqui em linhas resumidas, passagens desta aventura. Campos abundantes de verde, delineados e marcados a rigor, com vedações infindáveis, onde aqui e ali, podes avistar "pequenas" ovelhas a pastar. São como belos campos de futebol, aprimorados em rejubilo constante. Eles têm o tempo marcado, as batalhas e a história, contudo, são como se nada fosse, como se, nunca nada neles tivesse existido, além destas ovelhas a pastar.
Há prados e vales, e de ora em ora, avistam-se pequenas habitações populadas por uma gente sem alma. Frios e calculistas, é a impressão que me deixam, mas tento olha-los de uma forma, a qual não me faça assim entender, pois no fundo, espero e acredito que nem todos assim o são.
De Glasgow, local de onde me aventurei por estradas secundárias, para prosseguir a minha busca, a minha tão desejada busca, sempre, de polegar para cima, aguardo a gentileza duma alma que me possa transportar. O dinheiro é curto e caro por estas ilhas e os transportes são algo a considerar por uns enlatados.
O meu destino é incerto, na certeza, carrego apenas a vontade de chegar aquele lugar mágico. Não um local premeditado, que tenha visto ou estudado num desses mapas electrónicos, ou analógicos, mas aquele lugar onde chegando, sei que será precisamente esse e mais nenhum. Alguém abrandou o carro, pára e oferece-me agora algo que dizem ser proibido, o que faz de mim e deste ancião, uns "fora-da-lei". Pela primeira vez em terras da Rainha, serei um desrespeitante desrespeitador da lei britânica. A sua pele enrugada, velha e mal tratada diz-me que não é nenhum burguês. Aceito a paragem deste e viajo num velho carro, uma mini-van, envelhecida fisicamente pelo tempo, como o seu dono, mas que debaixo do seu capô, sita um forte coração que prossegue em frente. "Where to young lad?"; Pergunta-me esta pesada voz de experiência. "Somewhere! I'll go as far as you can go!" digo-lhe num inglês acanhado; "Great then! We will go to the "Duntree" Castlle! It is my home, my working place. Oh! No, I'm not the owner." diz-me cuidadosamente.
É raro nos dias de hoje haver este tipo de confiança. Conhecer as costas de alguém e oferecer-lhe boleia. Andamos por mais de meia hora, a uma velocidade tranquila que me permite continuar a vislumbrar esta bela paisagem. O sol, esse desce a grande velocidade. Recordo-me do que o "Puto" me ensinou sobre quanto tempo temos ainda de sol para o crepúsculo, e elevo os meus dedos ao horizonte. Restam cerca de vinte minutos de sol, e o céu é cor-de-laranja vivo.
Belo e divinal.
Quando chego, já o sol se pôs. Não vejo nada mais do que nuances, do que parece ser algo grande e coruscante.
Apresso-me agora a perguntar ao ancião, se há algum parque de campismo nas redondezas, ao que com grande ofensa retruca que deverei ficar nos seus humildes aposentos. Agradeço á humilde e humana boa vontade, mas não poderei aceitar. Afinal de conta, não conheço esta pessoa há mais de duas horas e nem sei o seu nome. Depois de alguma teimosia, cedo, e com um acanhado sorriso, agradeço e aceito toda a sua hospitabilidade.
Despacha-se para fazer algo gastronomicamente típico da região. É um guisado. Vive só apercebo-me. Pergunto-lhe se nunca se tinha casado, mas prontamente e com lágrimas quase a cair dos seus vivos olhos, diz-me que havia falecido há uns anos atrás. Ao ver a sua saudade e tristeza, mudo de assunto, falo-lhe do meu país e das saudades que também eu sinto. Não pelo mesmo motivo, graças à Força, mas por os demais que deixei na minha terra natal.
A janta era saborosa, coisa rara nesta terra, e logo após acabarmos esta, apresenta-me um malte, que diz ser a essência da sua longevidade. Teàrlach, ou feito à medida de Thor pelo que pude entender é a graça desta nobre alma. Falamos pela noite fora, e parecemos bem um para o outro neste momento tão solitário, mas ao mesmo tempo tão construtivo.
Sigo agora para uma nova etapa. Encontrar o local...
Espero que estas letras vos encontre bem!
Darei noticias.
Pernoitei nas imediações da casa desta alma, durante duas noites, e ontem até tive acesso às noticias do meu país. Sigo a minha busca. Montei a minha barraca com a sua permissão, e pude ver céus para mim nunca vistos. Radiante esta experiência foi. Foi com grande leveza que me embebedei ao gosto daquele velho malte, e logo eu que nem gosto de whisky, mas como Teàrlach diz, malte não é whisky. Proferimos os mais diferentes assuntos, desde cultura e culturas, politica e políticos, mulheres e relações, o estado pouco saudável do globo. Enfim! Um verdadeiro intercâmbio de conhecimentos e interesses infinitos. É um homem culto e sabido. Tem uma enorme estante que ostenta os mais diversos livros. É também ele um amante de Oscar Wilde e de Edgar Allan Poe, entre muitos outros. Com grande pena minha não conhece Fernando Pessoa, mas traduzo-lhe uma velha frase que surge com facilidade na minha mente, e logo o fascina. "Religion is the people's Opium". Fica admirado com o pensamento e com todo o peso do seu significado. Foi tema de grande discussão que se prolongou em algumas horas. Falo-lhe em teorias conspirativas, e dou-lhe a conhecer o "Zeitgeist". Pena é não ter o meu "laptop", para que o pudesse presentear com tal afirmação open minded.
Há coisas que por coincidência ou não, não nos soam credíveis. Ali estive eu, fui encontrado por uma pessoa a qual o seu nome é significado de um Deus pagão o qual admiro, com gostos similares aos meus, solitário sem solidão, longe dos seus por opção, com um vasto conhecimento que cativa qualquer um (não que nesta última assim me sinta). Alguém que nos "captura" a atenção, que nos absorve e se deixa absorver. Um intercâmbio constante de informação. Volto para a minha barraca, contemplo as estrelas e durmo.
Na manha seguinte sou levado a uma paragem de autocarros, onde Teàrlach se despede. Entre um forte aperto de mão e abraço, avista a paragem do bus que me levará a noroeste.
Há um lago que me foi recomendado, local magnifico de encher as vistas, rodeado por montes verdejantes, onde as árvores abundam, diz-me. É também destino turístico por aquelas bandas, mas existem "éne" sítios os quais poderei escolher. Loch Katrine de seu nome.
Não cheguei a ir ao lago. Não cheguei sequer a entrar no bus que me poderia levar. Fiquei por ali mesmo, não me era necessário ir. Compreendi que o local mágico que buscava, era nada mais, nada menos que o exacto sitio onde Teàrlach me levou. O terreno da sua moradia emana vibrações estupendas. Absorvi bons conhecimentos através daquela humilde e grande alma, através daquele pedaço de terra. Debaixo daquele enorme carvalho tive um sonho, com certeza não foi o único que tive, mas esse foi o que me acordou e, que, me deixou assim a sua memória, a sua marca, a ferida aberta de novo. A generosidade e, a humildade, não é algo que nos possamos educar, ou, cultivar, mas sim algo que nasce dentro dos que a têm.
Recordo-me de ti, das nossas lágrimas na despedida, mas ambos sabíamos que esta seria efémere. Grande amigo, tu deverias ter-me acompanhado nesta jornada. Fazia-te bem... Irias adorar toda esta passagem, todos estes momentos, toda a gratidão que me foi dada, seria também dada a ti. Volvi e fui comprar um novo bilhete, em direcção a Glasgow.
Chegado de novo à urbe, é apenas mais uma, nestas remotas ilhas no atlântico plantadas. Escuto uma vez mais "Jigsaw falling into place", e de novo as lágrimas escorrem dos meus olhos e, e... Regurgito, regurgito-me em memórias, boas, más. Ahh! As saudades, o cheiro da "minha terra". "Driving" outro tema que me alerta.
Tenho agora uma espera de algumas horas por esta cidade até poder ser capturado de novo para Birmingham. Espero que desta vez não haja atrasos na viagem.
Não houve atrasos, mas, na realidade também não chegámos propriamente à hora marcada. Que confronto este! Como poderá ser possível não chegar atrasado, mas, ao mesmo tempo não chegar a horas... Bem, o importante é que chegámos todos a bom porto. São precisamente quatro e dez da madrugada quando piso Birmingham, e agora resta só chegar a Kitts Green.
Sigo a pé numa jornada cerca de 15 quilómetros, e vou vislumbrando o que esta cidade me tem para oferecer. O movimento é constante, um frenesim frenético, mesmo a esta hora, cargas e descargas, rodeiam os cais de mega-superfícies, e as pessoas, essas andam numa lavoura ritmada como se não houvesse amanhã. Em voz alta são dadas as instruções por gerentes de logística, às demais "formigas obreiras" que manobram empilhadores e porta paletes a uma velocidade alucinante. Claro que tudo isto, é à minha vista, pois também estou cansado. A viagem foi morosa, e não prego olho desde as sete horas da manhã. Contudo, não deixa de ser algo belo e sincronizado, como nas danças aquáticas que podemos ver nos jogos olímpicos, onde aquelas senhoras rodopiam e formam figuras, as quais não julgamos ser possível executar. Melhor! Vemo-las a executar duma forma a qual dizemos ser tão simples, que nós próprios as executaríamos. Maravilhoso!
Prossigo o caminho, entre sono, fome, cansaço, estado de alerta, passo por entre "silos de gás" (perdoa-me se o termo é incorrecto), bairros sombrios, outros luzidios, perdido no tempo e no espaço, mas repleto de emoções. As tabuletas indicam-me o itinerário. Sigo-as. Levo quase duas horas a chegar a Stechford, e dali ainda mais 15 minutos, mas chego. Como dizia o filósofo: "A persistência transpõe todos os obstáculos. A perseverança tudo alcança".
Fadário este que me traz e leva. Avisto a tão desejada casa, o meu poiso, a minha guarida, o meu retiro e asilo que me receberá da mesma forma que me viu partir. Trago na bagagem o leve peso da tranquilidade, que me assola no profundo âmago a resistência do meu ser. Somos seres repletos de nada, sem sentimentos, sem funções lógicas de um ser, com disfunções crónicas do que desejariam efectivamente ser. Julgamo-nos melhor que muitos, que poderíamos fazer tudo bem melhor que os nossos rivais. Calma amigo! Quando disse sem sentimentos, não quis dizer que tu não choras por que te magoaram, ou porque magoaram algum ente querido, e quando digo rival, não significa que seja alguém que contra ti compete, ou que a tua fruição é maior ou menor do que tu possas achar justo. Não. Olhamos para o nosso umbigo e tentamos agir o que é politico/socialmente correcto. Eu, eu próprio sou um destes, mais um transeunte e claro que nós não seremos tão maus quanto outros são, claro que não és tão materialista como eu, ou vice versa, mas toda a razão de sermos e deixarmos passar tanto ao nosso lado, de fecharmos os olhos a tantas outras coisas, de não nos envolvermos em tantas outras mais. Frívolos, violentos, inteligentemente sem inteligência, materiais, humanos. Eis o que realmente somos. Somos humanos, mas do dicionário, onde a palavra humano se insere, os seus sinónimos apenas representam dois adjectivos dos cinco apresentados: próprio do homem e relativo ao homem e um substantivo que refere o género humano. Ficam em vista disto três adjectivos os quais na maioria, e quando te escrevo a maioria, é para não dizer na totalidade pois como lírico ainda julgo existir pessoas inocentes, o compassivo, bondoso e o benigno ficam a quem de aparecer em listas infindáveis como os anteriores. Ora se um mais um são dois e não onze, se o pragmatismo foi inventado pelos gregos há séculos e ainda todo planeta terra o utiliza, porquê, é que não pro-agimos em função uns dos outros. Como diz o meu amigo Cabs, eu sou dos uns e tu és dos outros, logo vamos ao cú uns aos outros. É terrível. Batermo-nos de valores morais, sociais, emocionais, judiciais, legais e outros tantos que terminam em tais e no fundo, no fundo somos todos iguais. Como nos poderemos ter auto intitulado racionais se subestimamos os por nós intitulados não racionais. O mundo é coisa feia amigo. Para podermos ser um pouco melhor hoje, lembramo-nos do mal igual ou semelhante que nos fizeram no passado. Somos de facto espertos, porque de inteligentes... Conclui tu. Até podemos equacionar as mais dificeis contas, elevar enormes obras de engenharia, criar curas para as dificeis doenças que surgem, contudo, somos apenas um contingente contido na nossa enorme estupidificação. Gozamos e chegamos mesmo ao ponto do ostracismo global, em virtude dos que se intitulam mais cultos e até especiais. Pois é meu amigo, são as palavras conforme comecei três estas linhas. Sou revoltado e isso revolta-me, daí o meu contentamento por ter conhecido Teàrlach, mas a minha tristeza em saber que outros se sacrificaram para que ele hoje fosse aquela gentil pessoa. Blá; blá; blá é só o que ouço dizer. Vêm cá cheios de teorias e teologias e demagogias e outras tantas ias. Ias era fazer alguma coisa por ti, por os teus ente queridos, pôr o teu planeta que ajudas a destruir todos os segundos que nele ainda consegues respirar, isso é que tu ias, e atenção que este ias não é exclusivamente a ti direccionado. É um ias global. Esquecemo-nos de quê? Sonhamos com o quê? Sonhamos com poder, com o nosso bem estar, com o facto de não nos importarmos com todo o achaque que o dinheiro e o poder nos impõe. Somos meros fantoches num teatrinho desses mesmos. Arghhh!! Fodasse, caralho! Só me apetece praguejar. Gostava de ser a cura para todos os problemas, e que no fim pudéssemos tirar real proveito dos três não englobados adjectivos de humano. Vou-me deitar. É de manhã, e o meu mal é sono. Toda esta raiva contida são restes de lisérgicos mal vividos, contudo, pela educação que a minha mente tem, como nesta terra não há estores, resta-me tentar adormecer na claridade, coisa que não me parece nada fácil. Mas vou á luta uma vez mais, afinal de conta, mais vale a pena tentar e falhar, do que, não tentar. Mesmo se tudo fôr dar ao mesmo, pelo menos fiz alguma coisa.
Adeus e um queijo. Bom trabalho.
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