20080625

Nada que julgo, é inaudível

Sobre o teu retrato, escrevo. As marcas deixadas pela minha escrita formam estrias em teu retrato.
São estrias de amor, é amor com estrias que não deixa de ter marcas, mas não deixa de ser amor.
A necessidade da nossa união faz com tudo se torne simbiótico. A means to an end! O teu corpo lentamente adormece junto ao meu e o nosso sentimento desperta interesse quando dormimos, e quando dormimos os sonhos invadem o nosso corpo sem pedir licença, sem solicitar a nossa autorização, sem que nos apercebamos da sua entrada. Tocam-se, acariciam-se. Desfazem tormentas onde a confusão é estilhaçada e nos fragmentos vemos sementes. Umas crescerão a nosso gosto, outras não. O teu suor é o meu sangue, e o meu sangue é o teu suor. Destilamo-nos entre palavras e gestos, caricias e olhares, vontades e desejos, mas no brilho do teu olhar, reflecte-se a decadência do meu. A luz. Jazem. Ressuscitam. Jazem. Ressuscitam e crescem à medida que rego tão esplendoroso canteiro. Florescem sonhos tão reais quão os sonhos o são. Acordamos e tentamos recorda-los, pensamos e revivemos esse teu brilho, julgando-o.
Será a vida um sonho? Será um sonho a vida?
Sinto o peso a rachar os olhos, pouso a caneta para o interregno do sonho.

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