São precisamente dezassete horas e quarenta e nove minutos. Foi tomada de assalto, numa forma atroz espontânea e nunca esperada, por um pensamento, que mais tarde se tornará num sentimento. Foi a confirmação do que jamais aguardaria saber. Ao mesmo tempo e reflexivamente, o que já lhe haveria ter sido dito. A diferença temporal para o que lhe havia sido dito, e o seu sentimento confirmativo (note-se que estas confirmações e, ou, premonições nunca a tinham traído) seriam precisamente de quatro semanas e dois dias.
Quarenta e oito horas antes, haveria existido um diálogo. Diálogo curto, sem grandes expressões, contudo, com uma enorme vontade de se expressar. Não seria a altura propícia. No prisma desta, muito haveria a falar, a contar, a indagar de como estaria. Em suma, em se interessar. Todavia, esta comunicação bilateral à distância, não passou de reservadas e em nada lacónicas. Vocábulos sem qualquer contexto construtivo de uma conversa que tanto desejava que fosse como no passado. Tinha perfeita consciência que lhe faltava, forma e cor de desenvolvimento onde a poderia tornar num agradável colóquio.
Duas noites se passaram. Entre sonhos e ameias, a sua semente tinha irrompido nas noites de hipotético descanso nocturno. Durante o primeiro dia, pensou-a por vezes, outras afastou-a da sua sentença. A noite foi totalmente passada com determinação, tranquilidade, em tudo o que a inundava e mais desejava. Ela, ela não a desejava.
No crepúsculo, acordou, e sem pedir licença, eis que foi invadida de novo em seu pensamento por quem a rompia no ensejo do tempo. Tinha desejado que nada disso alguma vez lhe tivesse acontecido. Não gostava da dor infligida, ou que poderia infligir. O triângulo, que ocasionalmente se mutou em pentagrama, deixava dúvidas. Conforme nunca esperado, as coisas teriam acontecido. A certeza foi breve. A fuga, evidente.
Numa passagem de um filme biográfico, houve também um triângulo. A cobardia assolou-o naquele filme que foi a sua vida. O mote mais fácil, foi a evasão e nada lírico houve nesta. Apenas as letras das suas músicas deprimentes e decadentes. Um estendal foi a sua solução. Tudo acontece. Por vezes não sabemos porquê, mas cientes de tudo, facto é que aconteceu, acontece e acontecerá.
Sempre haveria desejado que tudo fosse linear, mas linear só mesmo o significado da palavra. Nada foi como era dantes, nada seria como queria que fosse.
A avenida dos cactos seria o melhor local para uma meditação. A calma que aquele local lhe proporcionava seria assertivamente uma componente determinante para o estado que ela procurava. Levar-se-ia até lá num estado consciente. Sentou-se ali mesmo no chão. Deixou que as suas pálpebras se unissem, inspirou bem fundo "saindo" deste universo, elevando-se numa viagem a qual lhe mostraria as mais belas memórias, os mais belos momentos que haveria vivido, as demais pessoas que tinha amado. Sua força e determinação tentariam a todo custo chama-la daquele universo paralelo, mas repentinamente fez-se luz. Corrijo. Fez-se uma negra luz, seguida de um preto véu onde num instante a elevou a um estado de consciência que por milésimos de segundos, se provavelmente enésimo fê-la sentir leve, sem peso. Flutuando sobre si mesma a leveza era inacreditável bela. Via-se lá em baixo sentada no meio do caminho. Via-se pesada, velha, gasta, mas reluzente.
Matou-se de seguida.
Será que? O que a terá levado a?
Sem comentários:
Enviar um comentário